Seria a realidade independente do que lembramos?

memento

Christopher Nolan, inspirado em conto heterônimo escrito pelo seu irmão, Jonathan Nolan, nos apresenta a história de Leonard Shelby, um ex-investigador de fraudes que após uma invasão em sua casa sofre um trauma neurológico – amnésia anterógrada – que o impossibilita de registrar novas memórias, sendo a última a visão de sua mulher morrendo. Acordando sempre com essa lembrança, Leonard parte em busca do assassino, dando ínicio à história, ou no caso, encerrando-a.

A forma que o diretor encontrou de mostrar a história nos faz dividir com o protagonista a mesma frustração que ele sente. Somos também vitimados com a falta de informações, fazendo com que saibamos o que virá a seguir, mas sem saber o que ocorreu antes, isso porque a forma de edição escolhida faz com que a história se passe de trás para frente. Cada cena se inicia com o final da cena seguinte, como se fossemos também incapazes de formar novas memórias. Talvez se optado por uma narrativa linear, o filme não passasse de um thriller.

Como meio de contornar este problema, Leonard tatua e fotografa toda nova informação que consegue descobrir, registrando-as e dando a elas legendas que as tornam impassíveis de interpretações. Mas seria realmente a fotografia uma verdade absoluta? As fotos são muito mais do que o espelho da realidade. As legendas que damos a elas são sempre imbuidas de interpretações próprias, transmitidas à foto em um momento.

“Você esteve lá, disso pode ter certeza. É para isso que serve a foto – aquela

pregada à parede ao lado da porta. Não é usual tirar fotos em funeral, mas

alguém, seus médicos, suponho, sabiam que você não se lembraria. Eles a

ampliaram bastante e a puseram bem aí, próxima à porta, de forma que você

não pudesse deixar de olhá-la sempre que se levantasse para procurá-la.

(NOLAN, 2001, p. 4)”

Ao mesmo tempo somos apresentados à história de Sammy Jankis, que ocorre em ordem cronológica direta e em certos momentos se encontra com a história de Leonard, revelando novos fatos, e criando um elo entre elas, fazendo-nos questionar a veracidade da história de Leonard.

Assim, também ficamos incertos quanto à verdade sobre o assassinato. Teria ele ocorrido ou não? E quem estaria apto a dar seu testemunho, já que todos possuem suas versões da história, e somos sempre desnorteados com uma nova informação que desconstroi a anterior, aplicando sobre nós o mesmo conceito aplicado à foto. Somos subjetivos na definição de caráter dos personagens a cada novo olhar.

E qual seria o sentido desta busca por vingança, já que sua mente não será capaz de lembrar de tê-la realizado? O protagonista se lança numa jornada sem início, meio ou fim, ou talvez todos eles juntos, estando sempre perdido e sem saber para onde ir, sempre à espera de que algo novo surja e ele possa dar continuidade na sua história. Por mais que se tente dar legitimidade à fotografia, ela estará sempre sujeita ao olhar. O próprio protagonista desconstroi sua visão imparcial da fotografia ao propositalmente forjar uma legenda, fazendo com que todo o conceito caia por terra. Foi preciso que ele ignorasse um fato, no caso, o que dá a ele sentido, para que pudesse dar continuidade à sua vida.

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Grupo de Estudo de Fotografia da Ufes
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